Significado e história dos cantos de Taizé sobre Cristo Jesus

Taizé, além de oração e música, é um encontro de corações, onde cabem todos aqueles que buscam viver o Amor ao Criador e ao próximo, independente de bandeira, língua, raça, cor, sexo ou religião. Durante a Segunda Guerra, muitos jovens desejavam o silêncio e encontro com Deus. Tendo em vista esse período difícil, e no intuito de acolher e proporcionar essa busca, o irmão Roger (in memorian), pastor suíço, fundou em Borgonha (França) a Comunidade Ecumênica de Taizé.

Origem histórica e proposta ecumênica

A Comunidade de Taizé, criada pelo irmão Roger Schutz na década de 1940, na França, para acolher aos refugiados da Segunda Guerra Mundial, foi criada para ser um “sinal concreto de reconciliação entre cristãos divididos e entre povos separados”. Em Taizé, encontramos jovens de todo o mundo, capazes de manter um silêncio intenso, nada artificial durante as três orações diárias. Esta história tornou-se num dos capítulos mais significativos da vida religiosa europeia do século XX.

No verão de 1940, disse a mim mesmo: “A guerra estourou e há um grande sofrimento. É hora de começar o que está no coração há muito tempo." Então, de Genebra, parti para França. Saí de bicicleta e cheguei a Cluny, onde o notário me mostrou uma casa à venda em Taizé. Era então uma aldeia sem estradas asfaltadas, sem telefone, nem água canalizada. Não havia padre desde a revolução. Quando cheguei, fiquei impressionado com a recepção calorosa de alguns idosos.

Estas são duas coisas essenciais para Taizé: a busca pela paz, no esforço de evitar que haja outras guerras tão terríveis como foi a Segunda Guerra, devastadora na França; e a reconciliação entre os cristãos, no desafio de chegar à unidade. Ele também estudou as regras das comunidades monásticas e da vida religiosa, porque se interessava muito pelo tema da vida comunitária.

O que são os cantos de Taizé

Os cantos de Taizé formam um conjunto de 157 peças breves reunidas em um cancionero e compostas por vários compositores. Destaca, entre todos eles, a aportação do compositor francês Jacques Berthier que escreveu 71 cantos. Contém a típica estrutura de 8 compasses com 2 frases complementares de 4 compasses.

Os cânticos de Taizé, a recitação da Palavra de Deus, o silêncio, as preces e o louvor compuseram esse encontro de corações e de almas com o que é mais Sagrado. Nos cantos, que convidam à confiança no Deus Uno e Trino, a tradição monástica é revivida e atualizada, transmitindo a ressurreição de Cristo como o centro da fé cristã.

Grupo de jovens cantando na igreja de Taizé com velas

Estrutura musical e técnica dos cânticos

A escrita musical, esboçada numa partitura, apresenta diferentes figuras musicais conhecidas como mínimas, semínimas, colcheias, semibreves e por aí vai. Isso mostra que é possível e necessário unir o diferente para que tudo ressoe com mais harmonia. A junção do diferente, respeitando cada figura, seu tempo e obviamente as suas pausas musicais, é o que mais encanta.

A típica estrutura dos cânticos de Taizé é um período de 8 compassos dividido em duas frases de 4 compassos; cada frase se divide em duas semifrases de 2 compassos que também têm uma relação de pergunta e resposta (antecedente-consequente). As duas semifrases formam um contraste rítmico, produzindo um perfeito equilíbrio entre o paralelismo das frases e o contraste das semifrases.

Na oração comunitária, os cantos se repetem várias vezes, com um acompanhamento constante de guitarra que mantém o tom e o tempo. A guitarra costuma arpejar e ornamentar os acordes do canto em ritmo de colcheias, formando um duplo ritmo entre as semínimas do canto e as colcheias do instrumento, típico de certas práticas históricas.

Repetição, interioridade e variedade vocal

A repetição é sem dúvida o elemento característico de los cantos de Taizé. “La repetición invita a la interioridad. Si uno hace la prueba, ¡el resultado es sorprendente!” A repetição convida à interioridade; uma música repetitiva pero siempre diferente que te va introduciendo en tu interior. A repetição cria espaço para a oração interior e para que a melodia penetre no coração e na mente.

Em comparação com muitos cânticos de missa em paróquias, estes cânticos contam com múltiplas vozes: refrões meditativos que se elevam e se repetem durante longo tempo, intercalados de contra-cantos de solistas, em vários idiomas. Graças a quatro vozes e às partes de solo, há um amplo margem de progressão; o canto pode parecer pobre se se cantar apenas a linha das sopranos, mas desenvolvendo as vozes a riqueza cresce.

Silêncio, símbolo e experiência litúrgica

As orações são tocadas, cantadas e silenciosas. Sim, considero o silêncio a mais bela melodia; é a parte mais sublime desse momento, é onde a Melodia Divina ressoa em cada coração em resposta aos cantos comunitários de perdão, petição, súplicas, louvores, adoração. Há momentos em que as luzes são apagadas e os participantes utilizam velas, proporcionando assim um espaço de paz, onde se reza a Vida de Cristo, utilizando de simbologias para melhor aprofundar a Palavra de Deus.

Alguns nomeiam esse momento como um mantra, uma repetição que vai penetrando o coração e a mente. Prefiro dizer que são antífonas, versículos que os católicos geralmente, em um só coro, expressam nos salmos ou cânticos religiosos na Liturgia. A meditação de Taizé ajuda a preparar os corações para o Natal, a Páscoa de Cristo, Pentecostes e muitos outros momentos.

Função pastoral e impacto nos jovens

O principal objetivo do Taizé é levar seus participantes à paz interior, que se adquire somente com Cristo. A oração de Taizé quer transmitir a alegria da ressurreição, que é o que vivemos quando rezamos juntos: estamos entrando neste mistério da ressurreição de Cristo. O tema do amor e da confiança também estão presentes na oração de Taizé porque “permite nos confrontar com o medo de um jeito diferente.

O jovem tem muitos medos, inquietudes e é importante ter confiança de que Deus nos acompanha. A iconografia e símbolos como o ícone da amizade mostram Cristo ao lado de um santo, como seu amigo; é uma imagem da confiança de que Cristo ressuscitado está ao nosso lado, no caminho. Muitos jovens que voltam a Taizé dão testemunho de que a experiência musical e de silêncio transforma sua vida espiritual.

Difusão, adaptações locais e vida comunitária

Em Taizé, encontramos jovens de todo o mundo; a simplicidade e a espontaneidade da oração e o estilo de vida aquele lugar são agradáveis e convincentes. A Comunidade não é um grupo nem um movimento nem uma igreja, mas uma comunidade de vida; somos pessoas que fizeram um compromisso de vida, de celibato, de simplicidade, de obediência e, através da nossa vida comunitária, tentamos ser um pequeno sinal da unidade.

Na acolhida das pessoas, mas também na liturgia, sempre se busca criar um espaço acolhedor aos que chegam e para os jovens que nos visitam. Os primeiros irmãos eram de tradições reformadas e luteranas; mais tarde anglicanos e, depois do Concílio Vaticano II, participaram também católicos. Hoje, no fim da oração comunitária, todos os batizados que acreditam na presença real de Cristo na eucaristia e buscam a unidade são convidados a receber a eucaristia consagrada em celebração anterior.

Exemplos de difusão local

Em 2017, apareceu uma iniciativa ecumênica em Curitiba chamada Encontro de Oração e Música, com o intuito de cultivar o uso deste repertório com a Igreja reunida na sua pluralidade. Assim, a partir dessa data, cada ano foi sendo realizado um destes encontros dentro da mística de Taizé. Em 2022/2023, o Movimento Ecumênico de Curitiba (MOVEC) promoveu edições coordenadas por líderes de diferentes denominações; o roteiro incluiu cânticos de Taizé, recitação da Palavra, silêncio, preces e louvor.

Durante tempos difíceis decorrentes da COVID, os amantes de Taizé se viram privados de manifestar suas orações de forma comunitária e presencial. O maestro José Luis Manrique aproveitou da tecnologia para reunir em oração as pessoas: cada um gravava em sua casa um trecho, arranjos ou bases preparadas pelo maestro e depois eram enviadas para a junção das partes, formando assim, um só canto e coro. A sensação de paz retomou e invadiu muitos corações que sofriam a ausência, a distância e as dificuldades causadas pela pandemia.

Testemunhos e sentido pessoal

Meu primeiro contato e paixão pelos cânticos de Taizé aconteceu na Paróquia Imaculado Coração de Maria, no bairro Rebouças. O padre Eguione que abriu as portas da Paróquia a todos que amam essa forma de louvar e viver Deus. Promoveu cursos para músicos com profissionais musicistas e musicoterapeuta e por último, no dia vinte de agosto deste ano, o MOVEC promoveu o IV Encontro de Oração e Música.

No auge da quarentena mundial, estava vivendo um período sabático e fiquei confinada na Bélgica. Tivemos a graça de avançar fronteiras. O maestro enviou a minha parte do arranjo “Louvarei a Deus” de Jacques Berthier que dividi com a madre Hannah, monja beneditina do Mosteiro de Notre-Dame de Bethanie, em Loppem-Bruges, em Flandres. Assim me sinto quando toco minha flauta: a música une corações através de uma linguagem mundialmente conhecida.

Elementos teológicos nos cânticos

Nos cantos que convidam à confiança no Deus Uno e Trino, a tradição monástica é revivida e atualizada, transmitindo a ressurreição de Cristo como o centro da fé cristã. O medo aparece em vários cantos, mas sempre junto com a confiança: ‘Não tenham medo porque eu estou aqui’, ‘Arrisquemos tudo por amor’, ‘Eu não conheço os teus caminhos, mas sei que tu sabes o caminho para mim’. É uma introspecção; percebemos muitas coisas em nós, uma confiança, uma oferta que confiamos a Deus. Na oração isso é transformado em um passo de confiança.

Aspectos práticos para músicos e líderes

Para que a oração profundize, é necessário que haja uma interpretação ou análise. Nos ensaios é possível exercitar a voz e a pronúncia; a qualidade do canto em Taizé é resultado de práticas continuadas, da presença de jovens de muitas línguas que aprendem a cantar em conjunto e do desenvolvimento das partes vocais. A repetição, as múltiplas vozes e os solos permitem explorar todo o potencial emocional e espiritual dos refrões.

Tabela resumida: características dos cantos de Taizé

  • Formato: peças breves, refrão repetitivo
  • Estrutura musical: 8 compassos (2 frases de 4 compassos)
  • Textura: homofônica com possíveis contrapontos e solos
  • Acompanhamento: guitarra arpejada, apoio vocal em várias vozes
  • Função litúrgica: oração comunitária, meditação, preparação para festas cristãs
  • Impacto: favorece interioridade, confiança e reconciliação ecumênica

Em cada um de nós há o desejo de uma vida plena, bonita e, quando se descobre que é possível viver assim, pela fé, isso nos ajuda a viver esta vida de um modo mais profundo e pleno. A experiência de Taizé, através de seus cânticos, do silêncio e da vida comunitária, permanece um convite à reconciliação, ao encontro com Cristo e à partilha fraterna entre povos e tradições diferentes.

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