Santuário de Cristo Rei (Almada): história, arquitetura e curiosidades

O Santuário de Cristo Rei, situado no planalto do Pragal em Almada, ergue-se como um dos marcos mais emblemáticos da região de Lisboa. Elevando-se a 113 metros acima do nível do rio Tejo, o monumento combina devoção, memória histórica, arquitetura monumental e presença turística, oferecendo uma vista panorâmica de 360º sobre Lisboa, Almada e o estuário do Tejo.

Origem da ideia e inspiração

O desejo de construir um monumento a Cristo Rei nasce em 1940 quando os bispos portugueses fazem o voto de erguer sobre Lisboa um Monumento ao Sagrado Coração de Jesus se Portugal fosse poupado da Guerra. A concepção do Santuário de Cristo Rei é indissociável da espiritualidade e da devoção ao Coração de Jesus que caracterizou a pessoa e a missão do Cardeal D. Manuel Gonçalves Cerejeira (1888-1977), XIV Cardeal-Patriarca de Lisboa. A ideia da sua construção remonta a Setembro de 1934, depois do cardeal Cerejeira, então Patriarca de Lisboa, visitar o imponente monumento erguido a Cristo no alto do Corcovado, sobre o Rio de Janeiro.

Em Outubro de 1934, quando regressava do Congresso Eucarístico Internacional de Buenos Aires, ao sobrevoar de avião a cidade do Rio de Janeiro, perante a contemplação da imponente imagem do Cristo Redentor do Corcovado, recebe a inspiração de erigir em Portugal, nomeadamente em frente a Lisboa, um Santuário dedicado ao Sagrado Coração de Jesus. Quando chegou a Portugal teve o propósito de propor a erecção de um monumento semelhante.

Voto episcopal e período da Segunda Guerra Mundial

No final do seu retiro anual, a 20 de Abril de 1940, os bispos portugueses reunidos em Fátima formularam o seguinte voto: “Se Portugal fosse poupado da Guerra, erguer-se-ia sobre Lisboa um Monumento ao Sagrado Coração de Jesus, sinal visível de como Deus deseja conquistar para Si toda a humanidade”. Portugal manteve uma posição de neutralidade na IIª Guerra Mundial, não participando directamente nos conflitos bélicos, o que foi decisivo para que se colocasse em marcha uma campanha nacional de angariação de fundos para que a construção fosse uma realidade.

A ideia ganhou urgência com a eclosão da Segunda Guerra Mundial (1939-1945). O facto de Portugal ter conseguido manter-se à margem do conflito foi entendido como um sinal singular da Divina Providência e da resposta a esta súplica nacional.

Angariação de fundos e participação popular

Para que este projecto tivesse carácter nacional precisava da aprovação e cooperação de todos os Bispos Portugueses. E foi o que aconteceu, sendo oficialmente proclamada na «Pastoral Colectiva» da Quaresma de 1937. Tendo Portugal mantido uma posição de neutralidade na IIª Guerra Mundial, permitiu que se pusesse em marcha uma campanha nacional de angariação de fundos para a construção do Monumento.

Devemos também fazer referência à participação das crianças portuguesas nesta campanha de angariação de fundo («pedras Pequeninas»), estendendo-se desde 1939 até 1958. O princípio que a norteou foi sobretudo o valor do sacrifício das crianças e a eficácia da sua oração. É de salientar que esta Campanha rendeu cerca de 7.500,00 €.

Aquisição do terreno e início das obras

Apesar de todas as dificuldades próprias do contexto de guerra mundial, em 1941, foi adquirido o terreno para a construção do Monumento. A 18 de Dezembro de 1949 é lançada a primeira pedra do Monumento, ano em que se celebrava o 50º aniversário da consagração da humanidade ao Sagrado Coração de Jesus pela mão do Papa Leão XIII.

Dois anos depois iniciam-se os trabalhos das fundações, e em 1952, a empresa Obras Públicas e Cimento Armado (OPCA) começa a construção dos alicerces. A obra foi realizada através de um sistema de cofragem especial (os chamados moldes viajantes, em que o andaime era a própria estrutura, recebendo o betão, nos quais se via crescer o pedestal da imagem de Cristo Rei, camada após camada). No total utilizaram-se cerca de 40 mil toneladas de betão.

Arquitetura, estatua e capela

O projecto tem como autores o arquitecto António Lino e o Engenheiro D. Francisco de Mello e Castro. O Santuário de Cristo Rei situa-se a uma altitude de cento e treze metros acima do nível do Tejo, sendo constituído por um pórtico projectado pelo arquitecto António Lino, com setenta e cinco metros de altura, encimado pela estátua de Cristo Rei de braços abertos, da autoria do escultor Francisco Franco de Sousa, com vinte e oito metros de altura. Com um pedestal de 82 metros e uma estátua de Cristo de 28 metros, a estrutura atinge uma altura total de cerca de 110-113 metros.

Entre os quatro pilares do Monumento, símbolo dos quatro pontos cardeais, encontra-se a Capela de Nossa Senhora da Paz, da autoria do arquitecto António Lino, com entrada para a fachada norte. No interior, a Capela de Nossa Senhora da Paz alberga uma estatua esculpida por Mestre Leopoldo de Almeida.

A própria imagem foi construída na estrutura entretanto erguida, utilizando-se para o efeito moldes de gesso, preparados previamente a partir da maqueta. Depois de construído o pedestal, a Imagem foi esculpida à mão num trabalho de minúcia, desenvolvido a mais de cem metros do chão.

vista panorâmica do Cristo Rei sobre o Tejo

Inauguração e significado público

A 17 de Maio de 1959 (Dia de Pentecostes) perante a imagem de Nossa Senhora de Fátima, com a participação de todo o Episcopado Português, dos Cardeais do Rio de Janeiro e de Lourenço Marques (Maputo), autoridades civis e de cerca de 300 mil pessoas, inaugurou-se o Monumento. Sua Santidade, o Papa João XXIII fez-se presente por Radiomensagem. Na ocasião, o Cardeal Cerejeira fez uma consideração eloquente: “Este será sempre um sinal de Gratidão Nacional pelo dom da Paz”.

O Santuário materializa o lema central da Solenidade: PAX CHRISTI IN REGNO CHRISTI (A Paz de Cristo no Reino de Cristo). A promessa só pôde ser cumprida após o fim da Guerra e o monumento passou a representar tanto um acto de devoção quanto um sinal público de gratidão pela paz social.

Intervenções e remodelações

O monumento passou, em 1999, a ser tutelado pela Diocese de Setúbal, que assumiu as obras de restauro, nos anos de 2001 e 2002. Poucos anos depois, ocorreram outras remodelações, como a Capela, em 2006, sendo alterado a Capela-Mor e a Capela do Santíssimo Sacramento. Nestes melhoramentos contou-se com a colaboração do arquitecto João de Sousa Araújo.

Entre as obras realizadas na capela-mor, o arquitecto Sousa Araújo é autor do fresco com temática “Mariana” que se encontra na capela-mor e do frontal do sacrário da Capela do Santíssimo Sacramento, composto por dois quadros pintados a óleo, o principal alusivo ao Apocalipse de São João, encimado por um outro triangular referente à "Hora Santa".

Curiosidades e dados técnicos

  • Altura total: cerca de 110-113 metros (pedestal de aproximadamente 82 metros e estátua de 28 metros).
  • Material principal: cerca de 40 mil toneladas de betão utilizadas na construção.
  • Campanha das “Pedras Pequeninas”: iniciativa popular, com grande envolvimento infantil, que decorreu entre 1939 e 1958.
  • A imponente estátua de Cristo Rei foi esculpida por Mestre Francisco Franco de Sousa; a imagem de Nossa Senhora da Paz é do Mestre Leopoldo de Almeida.
  • O pórtico é visível a grande distância e frequentemente ilumina-se com diferentes cores, chamando a atenção de quem atravessa a Ponte 25 de Abril ou passeia pela frente ribeirinha de Lisboa.

Tabela resumo: datas e factos principais

  • 1940 - Voto dos bispos portugueses (Fátima) condicionando a construção à preservação do país na guerra.
  • 1941 - Aquisição do terreno no Pragal (Quinta do Pau da Bandeira).
  • 18 Dez 1949 - Lançamento da primeira pedra.
  • 1952 - Início dos alicerces com a empresa OPCA.
  • 17 Maio 1959 - Inauguração oficial com grande participação popular.
  • 1999 - Tutela passa para a Diocese de Setúbal; anos 2001-2002 obras de restauro.
  • 2006 - Remodelação da Capela de Nossa Senhora da Paz e intervenções artísticas.

Visitar o Santuário hoje

O santuário do Cristo Rei constitui uma das maiores atrações turísticas do concelho de Almada. Para quem nunca visitou este grandioso monumento, aconselhamos a sua visita ao Pragal: além da experiência religiosa, o local proporciona uma vista única sobre Lisboa, arrábida e o estuário do Tejo, e permite apreciar elementos de arte sacra e intervenções arquitetónicas do século XX.

plano do interior do Santuário e localização da Capela de Nossa Senhora da Paz

Esta resenha sobre o Cristo Rei não esgota, de modo nenhum, a sua história, mas reúne os factos essenciais para compreender a origem, a construção, os artífices e o significado social e religioso deste monumento que se mantém como sinal de paz e devoção em frente à capital.

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