A região Oeste de Portugal presenteia-nos com paisagens bucólicas verdejantes, areais dourados a perder de vista e locais com monumentos singelos. Situada a escassas sete milhas do Cabo Carvoeiro, cerca de dez quilómetros, o Arquipélago das Berlengas destaca-se como um dos paraísos perdidos da costa portuguesa. É um bom mote para passar uma jornada diferente que contemple actividades de lazer pela natureza e património edificado da Ilha Grande da Berlenga.
Solitário. Isolado. Mágico. Mas, Forte. É este o Forte de São João Baptista da Ilha Berlenga. O guardião desta Ilha. A Berlenga. Uma Memória de Pedra que resta de outros tempos, de outras guerras. Saudades de pedra. A sensação de ver surgir a silhueta das suas muralhas na proa de uma embarcação causa espanto e comoção ao visitante da Ilha da Berlenga.
Breve história da ocupação e do contexto
A ocupação humana da Ilha da Berlenga tem mais de dois mil anos como comprova a investigação arqueológica levada a cabo por Jacinta Bugalhão e Susana Lourenço. Alguns arqueólogos e historiadores admitem a presença humana possa remontar à época Romana (século I a.C.).
A ocupação efectiva do território da Ilha Berlenga foi feita por uma pequena [e corajosa] comunidade de monges Jerónimos, com edificação de um espaço monástico - o Mosteiro da Misericórdia da Berlenga (1513-1548) - para auxiliar os pescadores locais e as vítimas de naufrágio. Entretanto, a escassez de alimentos, as doenças e os constantes assaltos de piratas e corsários tornaram impossível a vida de retiro dos frades, muitas vezes incomunicáveis devido à inclemência do mar.
Em 1449, o rei D. Afonso V cedeu o senhorio das Berlengas e do Baleal ao Infante D. Henrique, Mestre da Ordem de Cristo. Governava, então, El-Rei Dom Manuel I (1495-1521), à época Mestre da Ordem de Cristo e um grande devoto desta ordem religiosa.
Construção do forte e características arquitetónicas
No contexto da Guerra da Restauração, o monarca D. João IV (1640-1654) ordenou a construção de uma estrutura militar para complementar a defesa da costa e da cidadela abaluartada de Peniche. Após a visita de João Rodrigues de Sá, entre 1651 e 1654, sobre um dos ilhéus da enseada da Muxinga, na vertente sudeste da Ilha da Berlenga, decorreram as obras de construção, com recurso a cantarias calcárias e reaproveitamento de pedras do antigo Mosteiro da Ordem dos Jerónimos, do único exemplar bélico do Arquipélago das Berlengas: o Forte de São João Baptista da Berlenga.
A estrutura do forte desenvolve-se como um maciço polígono octogonal irregular, que se adapta à morfologia do ilhéu onde está implantado. Com uma planta octogonal irregular, adaptado à morfologia, estava guarnecida com nove peças de artilharia (canhoeiras). Contém um pátio interior; junto às muralhas exteriores foram edificadas o paiol e as casamatas. Adossadas às muralhas exteriores foram edificadas as antigas casamatas e o paiol.
O portal principal rasga-se na face virada a noroeste, composto por um vão retangular com frontão de aletas rematado por escudo coroado com lápide no tímpano integrando inscrição. As fachadas viradas a norte e a oeste apresentam-se rasgadas por várias pequenas janelas de moldura redonda, dispostas irregularmente em dois registos. Nas fachadas sul e este, viradas ao mar, foram abertas as canhoeiras, dispostas a intervalos regulares.

O ataque de 1666 e os episódios militares
Um dos mais conhecidos episódios nos anais da História de Portugal foi o ataque de uma armada castelhana de 14 navios, comandada pelo almirante Don Diogo Ibarra, que tinha por objetivo raptar a rainha D. Maria Francisca de Sabóia na sua chegada a Portugal, à época do seu casamento com D. Afonso VI. Logrado o objectivo principal, em Junho de 1666, a armada espanhola decidiu atacar o Forte de São João Baptista, tendo efectuado um intenso bombardeado.
Defendida por uma pequena guarnição, inferior a vinte homens e contando com apenas nove peças de artilharia, esta fortificação liderada pelo cabo Avelar Pessoa conseguiu resistir durante dois dias ao feroz bombardeamento inimigo, bem como provocar importantes baixas nas forças sitiantes, traduzidas em cerca de quinhentos mortos, uma nau afundada e duas outras fortemente danificadas, contra um morto e quatro feridos lusos. O esgotamento dos mantimentos e das munições, e a deserção de um dos soldados, que expôs a D. Diogo Ibarra a dramática situação da guarnição portuguesa, motivaram finalmente a capitulação do forte.
Apesar das baixas castelhanas (cerca de 500 mortos, uma nau afundada e duas danificadas), os combatentes portugueses foram capturados e levados para Espanha pelas forças sitiantes. Posteriormente sofreu obras de restauração, com a reedificação da capela em seu interior e reparações ordenadas pelo rei restaurador.
Usos posteriores e classificação
Após um restauro na terceira metade do século XVII, após o ataque de 1666, o forte adquiriu funções de presídio político e militar. Entre outros episódios militares, durante as Guerras Peninsulares o forte serviu de base de apoio para a Royal Navy para realizar assédios constantes à guarnição francesa da cidadela de Peniche. Com a retirada destes, foi pilhada pelos franceses. A capela e o forte foram, novamente, restaurados em 1821.
No decorrer das lutas entre liberais e absolutistas (1828-1834) foi utilizada de base às tropas de D. Pedro IV para a conquista da fortaleza de Peniche, ocupada por forças miguelistas. Em 1847 esta fortificação militar do século XVII acabou por ser abandonada, visto que já não cumpria as necessidades bélicas. Em 1914 deixou de ser usado para fins militares e com a partida dos últimos elementos da guarnição foi deixado ao abandono.
Em 1938 o Forte das Berlengas foi classificado como monumento nacional, atendendo à sua importância histórica e técnico-arquitetónica. Durante a década de 50 do séc. XX, entre 1952 e 1953, a Fortaleza de São João Baptista foi restaurada pela então Direcção Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais para uma posterior adaptação do espaço a pousada, servindo de abrigo a quem aí desejasse pernoitar. O “mentor” do Estado Novo, Dr. Oliveira Salazar, acompanhado pelo então Ministro da Marinha Almirante Américo Tomás, a 9 de Julho de 1952, fez uma visita para acompanhar as obras de adaptação a Pousada do Forte de São João Baptista.
Após a Revolução dos Cravos (1974), este bastião de defesa costeira foi cedido, pelo Estado Português, à Associação de Amigos da Berlenga (AAB), com vista à sua reabilitação e, mais tarde, para adaptação a alojamento turístico. Funciona, assim, como casa-abrigo para os inúmeros visitantes que escolhem ficar nas suas celas seculares.
Descrição artística e arquitetónica
Planta octogonal irregular, mais alongada no eixo N. S.; construções de planta rectangular adossadas às paredes N. e O. e implantadas ao centro do polígono, cobertas por terraços lajeados dispostos em duas águas, com ligeira inclinação. Assenta embasamento vertical, a norte e oeste, em talude; a face sul e este apresenta a cortina mais baixa rasgada por canhoeiras dispostas em intervalos regulares.
Informações práticas para visitantes
Antes de viajar para a Berlenga, segundo a CM Peniche, é recomendável consultar algumas particularidades desta ilha para planear a sua viagem. Por exemplo, o visitante deve efetuar a reserva do transporte e/ou do alojamento antecipadamente. Já o Município de Peniche permite descarregar mapas e um conjunto de informações sobre os transportes públicos, locais de interesse, museus, gastronomia, entre outros.
O acesso terrestre à ilha da Berlenga está condicionado pela sua capacidade de carga, estipulada em 550 visitantes/dia (Portaria n.º 355/2019, de 22 de maio) a permanecer em simultâneo na área terrestre da ilha da Berlenga, minimizando os efeitos da visitação sobre os habitats e as espécies em presença. Em virtude deste facto, o Ministério do Ambiente decretou, a partir de Abril de 2022, a cobrança de uma taxa diária para os turistas que queiram conhecer a Ilha da Berlenga. A taxa turística tem um custo de três euros por dia e por pessoa. Os visitantes maiores de 6 anos e menores de 18 anos e os visitantes a partir de 65 anos pagam 50 % do valor da taxa, ou seja, 1,5 €.
A ligação marítima, entre o Porto de Peniche e a Ilha da Berlenga, tem uma duração aproximada de uma hora. As embarcações de passageiros funcionam entre os meses de Maio e Setembro; fora desse período não existe transporte regular para a Ilha da Berlenga, à excepção dos faroleiros e dos pescadores locais. O “Cabo Avelar Pessoa”, embarcação da empresa VIAMAR, é o transporte marítimo regular com maior capacidade de carga e para o transporte de passageiros.
Em virtude de ser uma Reserva Natural (Reserva Natural da Biosfera da UNESCO), a Ilha da Berlenga tem três e únicas possibilidades de pernoitar para os visitantes: o apoio de campismo (Município de Peniche - Posto de Turismo), na Pousada do Forte São João Baptista da Associação de Amigos das Berlengas (AAB) ou no Restaurante Mar e Sol. Aconselha-se a quem quiser pernoitar na ilha a levar lanternas e mantimentos, água doce incluída. No Castelinho existe um pequeno bar e um minimercado com produtos essenciais para a estadia na Ilha. Importa referir que a electricidade é cortada à uma hora da manhã.
Na minha opinião, a opção mais correta é levar, como se dizia nos escuteiros, “almoço-volante”, isto é, o típico farnel. Nada como uma bela “sandocha” e uma “cervejinha” para desfrutar do descanso de uma caminha pelos trilhos da Berlenga. Em virtude da Ilha da Berlenga ser um santuário natural, a oferta e diversidade de espaços gastronómicos é muito reduzida. A principal área de restauração localiza-se na Berlenga Grande: o Restaurante e Alojamento Mar & Sol, localizado no bairro dos Pescadores, onde se pode provar uma caldeira de marisco ou um prato de sardinhas com sabor à maresia atlântica.
🏰 Berlengas: Uma visita ao imponente Forte de São João Baptista! | Portugal 🇵🇹 | EP 149
Recomendações finais para uma visita consciente
- Reservar transporte e alojamento com antecedência, sobretudo entre Maio e Setembro.
- Consultar informação oficial do Município de Peniche e respetivos mapas antes da viagem.
- Levar farnel, água e lanternas se pretende pernoitar na ilha.
- Respeitar os limites de visitantes e as regras da Reserva Natural para proteger habitats e espécies.
Tabela resumida - dados essenciais
Localização: Ilha da Berlenga Grande, Arquipélago das Berlengas, porto de Peniche.
Época de navegação regular: Maio a Setembro.
Capacidade diária na área terrestre: 550 visitantes (Portaria n.º 355/2019).
Taxa diária de visita: 3 € (1,5 € para crianças e séniores, Portaria n.º 19/2022).
Estado atual: Monumento nacional; adaptado parcialmente a Pousada e abrigo turístico pela AAB.
O Forte de São João Baptista das Berlengas é, afinal, um verdadeiro “guerreiro de pedra” que combateu ao serviço da nação portuguesa, guardando memórias de naufrágios, assaltos corsários e batalhas que marcaram a defesa da costa portuguesa.