A Igreja de São João Baptista, em Tomar, é um exemplar arquitetónico de grande valor histórico que combina traços góticos, manuelinos e barrocos, construída sobre vestígios de templos mais antigos. A data da fundação do primeiro edifício religioso no local é incerta, mas é provável que a primitiva igreja tenha sido erguida pelos Templários que aqui se fixaram, possivelmente por iniciativa de Gualdim Pais enquanto o Castelo era edificado e a cidade surgia.
Estratigrafia histórica: "um templo, em cima de outro templo"
A História da Igreja de São João Baptista lembra as matrioscas russas; abrindo a casca à actual igreja encontramos uma outra, mais antiga, e abrindo depois essa, descortinamos uma última, cuja data de construção é hoje uma incógnita. Há uma referência, datada de 1178, a uma “rua de São Joannes” que indicia ter existido uma eventual ermida dedicada a São João. Do segundo templo, possível projecto do Infante D. Henrique, que morou em Tomar enquanto Mestre da Ordem de Cristo, conhecemos um pouco mais: a igreja, da primeira metade do século XV, seria diferente da que hoje vemos - mais pequena e com outra orientação, como parecem indicar os portais da parede sul, conservados até ao presente momento.
É em torno de 1430, com o Infante D. Henrique, que se inicia a reconstrução da igreja. A obra que lhe conferiu a aparência que hoje conhecemos aconteceu sobretudo no início do século XVI, durante o reinado de D. Manuel I; em 1510 documenta-se o final das obras e no ano seguinte concluía-se a estrutura da torre sineira. Em 1520 o rei D. Manuel decretou que a Igreja de São João Baptista fosse elevada a Colegiada, integrando as capelas de padroado real.
Fachadas e elementos exteriores
O templo manuelino desenvolve-se em planta rectangular, cuja tipologia se inspira no modelo das igrejas mendicantes. Dividindo-se em três naves, perfeitamente demarcadas no exterior, possui uma torre sineira de grandes dimensões edificada do lado esquerdo da fachada. Ostenta dois portais manuelinos, com decoração vegetalista, zoomórfica e com os símbolos de D. Manuel. O portal principal, de gosto manuelino, apresenta um arco contracurvado enquadrado num alfiz totalmente decorado com relevos de motivos vegetalistas, zoomórficos e símbolos heráldicos.

Na fachada principal, quer o portal, quer a platibanda, recorrem à flor-de-lis já usada no tímpano original que está embutido na torre. No caso da platibanda, há ainda um guerreiro armado com lança e armadura ao centro, imagem que atribuímos presumivelmente a São Jorge. O portal lateral norte é em arco trilobado, inscrito em alfiz, com colunelos torsos e friso preenchido por faixa vegetalista em que avultam alguns animais: cães, javalis e caracóis; no espelho surge a esfera armilar e o escudo real.
Já a torre, no topo do seu tramo inferior, de planta quadrangular, tem dois símbolos fáceis de identificar: o escudo e a coroa do reino português; a esfera armilar de D. Manuel. No tramo do meio, a torre passa de planta quadrangular para octogonal e guarda nesta parte o relógio que dava horas junto ao castelo.
Sinais do primeiro e segundo templo
Na base da torre podemos ver dois registos que parecem vir do templo original: um tímpano românico embutido com dois animais (um claramente um cão, o outro que parece ser um leão) e uma flor-de-lis entre ambos; e uma saliência que se assemelha a uma cabeça de leão, possivelmente um antigo pé de túmulo. Para imaginar como seria a entrada do segundo templo, antes das alterações realizadas por D. Manuel I, o ideal é deslocarmo-nos à parede virada a sul, onde encontramos dois portais góticos quebrados, um deles dando acesso à sacristia.
O interior: planta, capelas e o púlpito
Do lado de dentro, a igreja confirma o que imaginamos quando a observamos do lado de fora. Três naves, ligadas por arcos quebrados, e uma capela-mor abobadada e com altar barroco seiscentista. O templo possui uma cabeceira tripla ladeada por capelas comunicantes com cobertura de abóbada de nervuras cujas mísulas de apoio são decoradas com heráldica manuelina.
Do programa decorativo destaca-se o púlpito de secção poligonal repleto de relevos vegetalistas lavrado em 1513, cujo gosto de gótico francês é correntemente sublinhado. O púlpito, feito em pedra calcária, de balcão facetado sobre mísula piramidal poligonal, ostenta nas faces a cruz da Ordem de Cristo, o brasão real e a esfera armilar, e é considerado a pedra-de-toque da Igreja de São João Baptista, como também um dos mais bonitos artefactos religiosos em Portugal.

A parte interior da torre integra o baptistério, onde a pia baptismal apresenta um sol, uma lua e uma esfera armilar. Paulo Alexandre Loução sublinha que a esfera armilar aqui esculpida tem, intencionalmente, a forma de ovo, o que favorece a ideia de relação entre os três símbolos: o sol fecundador, a lua reprodutora, e o rebento que é a terra.
Pinturas e retábulos
A sequência de pinturas que vemos expostas ao longo da igreja, cuja autoria é, em grande parte, atribuída a Gregório Lopes, obriga à paragem: de maior valor são a da Última Ceia (note-se na posição de Maria Madalena, adormecida e agarrada a Jesus Cristo), a de Abraão e Melquisedeque (onde encontramos um judeu, um cristão e um muçulmano em pacífico encontro) e as duas que aludem ao episódio da morte, por degolação, de São João Baptista. Os altares laterais em cantaria foram edificados no século XVII, e a cabeceira foi revestida de painéis de azulejos nessa época; no primeiro quartel do século XVIII foi colocado o retábulo-mor de talha dourada.
Influências formais e comparações
As arquivoltas contracurvadas do portal principal e a decoração de entrelaços e platibandas revelam semelhanças com a obra escultórica francesa, nomeadamente com as Capelas Imperfeitas do Mosteiro da Batalha. O púlpito apresenta formalmente alguns pontos de contacto com o púlpito da Igreja de Santa Cruz de Coimbra. As tracerías do tímpano, a platibanda que encima o portal e os entrelaços, revelam influência das grilhagens do Mosteiro da Batalha.
Conservação e restauros
A Igreja de São João Baptista foi restaurada pela primeira vez em 1875, embora oito anos depois se reclamassem novas obras no templo, nomeadamente o restauro do portal e do púlpito. Ao longo do século XX a matriz foi objecto de sucessivas obras de beneficiação de estruturas, limpeza e restauro do programa decorativo. Em 1934 entrou no espaço da igreja a pintura da Visitação, executada por António Manuel da Fonseca para o Convento das Salésia, em Lisboa.
São João Baptista, os Templários e o simbolismo
A primitiva Igreja de São João Baptista remonta ao tempo do Infante D. Henrique, sendo referenciada na documentação coetânea como ponto de reunião local. A hipótese lançada por alguns investigadores é desafiante: para os Templários, João Baptista poderia ter tido um estatuto especial, talvez padroeiro dos Cavaleiros do Templo. Manuel Joaquim Gandra desenhou uma fórmula geométrica onde explica como os principais monumentos de Tomar obedecem a uma geografia sagrada, e no centro dessa circunferência, no umbigo deste corpo, está a Igreja de São João Baptista.

Visitar Tomar: contexto urbano e rotas
Situa-se no centro histórico de Tomar e constitui o mais privilegiado miradouro para o Castelo dos Templários. Encarada como familiar da Igreja de Santa Maria do Olival, embora em lados opostos do rio Nabão, a Igreja de São João Baptista domina a Praça da República e inicia a histórica rua da Corredoura. Tomar, produto da simbologia Templária, da imaginação do Infante D. Henrique e da religiosidade da Ordem de Cristo, reúne ainda o Castelo de Tomar, o Convento de Cristo e a Mata Nacional dos Sete Montes como referências essenciais do roteiro.
Roteiros e sugestões
- Visitar a torre sineira para observar o relógio e os símbolos manuais da esfera armilar e a cruz da Ordem de Cristo.
- Ver o púlpito manuelino e as pinturas atribuídas a Gregório Lopes, com atenção especial à Última Ceia e às cenas da vida de São João Baptista.
- Explorar os vestígios do primeiro templo na base da torre e os portais góticos na fachada sul.
Documentário: Os Cavaleiros Templários - História Real Parte 1
Dados cronológicos principais
- 1178 - primeira referência documental à "Rua de São Joannes".
- c. 1430 - reconstrução iniciada com o Infante D. Henrique.
- Início do século XVI - grandes obras manuelinas; 1510 documenta-se o fim das obras; 1511 conclusão da torre; 1513 lavra-se o púlpito.
- 1520 - elevação a Colegiada por D. Manuel.
- Séc. XVII - colocação dos altares laterais em cantaria e revestimento da cabeceira com azulejos.
- Séc. XVIII - alterações na cabeceira e instalação de retábulos barrocos; séc. XIX e XX - sucessivos restauros.

Situada em largo plano, a igreja articula massa de volumes horizontais com a torre sineira verticalista; a implantação urbana, o uso de símbolos régios e religiosas e a mescla de estilos fazem dela um documento vivo da história religiosa e política de Portugal entre a Idade Média e a Idade Moderna.